terça-feira, 9 de junho de 2009

O peso do conhecimento

Especialistas alertam que o peso das mochilas pode trazer deformidades na coluna

A caminho da escola, umitem essencial para a rotinaescolar de crianças e adolescentes é a mochila nas costas,nos ombros ou nas mãos, recheadas de cadernos e livros didáticos. A quantidade de livros para alunos no ensinomédio chega de treze a quinzeno total, podendo ser mais de um por disciplina, distribuídos entre as cinco a seis aulas ministradas por dia. O mesmo problema se aplica a estudantesdo ensino fundamental, embora o número de livros seja menor. Essa quantidade se complementa ao peso de cadernos, dicionários, canetas, lápis, borrachas e outros utensílios.

O que muitas vezes não passa pela cabeça dos alunos é que esse material - que nem todos os dias é utilizado em sala de aula, mas precisa estar sempre à disposição -, quando em excesso, pode ser prejudicial para a formação física dosjovens em fase de desenvolvimento. O peso do material escolar pode causar problemasna coluna que, a longo prazo, prejudicam a postura e podem trazer deformidades permanentes.

Segundo a fisioterapeuta Marinha Tereza Alves Nascimento, formada pela Faculdadede Fisioterapia de Patrocínio (MG), o uso inadequado de material escolar com excesso de peso ou o mau posicionamento podem causar dores musculares e alterações na coluna, como a escoliose (desvio na coluna vertebral em formato de “S”) e a hipercifose (aumento na curvatura da região dorsal, localizada à altura do tórax).

As deformidades podem ser tratadas quando são percebidas no início, devido a dores ou curvaturas na coluna. No entanto, depois que o adolescente atinge a idade óssea, o tratamento pode ser mais demorado e menos eficiente. Isso acontece porque os músculos das crianças são mais maleáveis e, por isso, podem recuperar seu formato com mais facilidade. Com o passar do tempo, o músculo vai perdendo essa capacidade, dificultando o tratamento realizado já na vida adulta. “O que uma criança recupera em alguns meses, um adulto pode levar até anos”, afirma a fisioterapeuta, que ainda lembrou que as dores de coluna e a má postura podem prejudicar o rendimento do aluno e aumentar o estresse.

Outro problema encontrado pelo peso excessivo do material escolar está nas alternativas que alguns estudantes encontram para se desviar do problema. O aluno Mário Brandão, 15 anos, afirmou não levar os materiais para a sala de aula por contado peso da mochila. “Eu só carrego caderno e agenda”, disse ele. Uma estudante que não se identificou afirmou que, às vezes, deixa os livros em casa para pegar emprestados os de outra turma. Atitudes como essa podem influenciar o desenvolvimento educacional, uma vez que os estudantes deixam de levar para as aulas o material necessário.

O que fazer?

A primeira coisa é tomar consciência de que o peso excessivo do material escolar pode acarretar, além de dores, deformidades acentuadas na coluna. O fisioterapeuta Márcio Oliveira, professor do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), afirma que crianças e adolescentes conseguem carregar até no máximo 10%o peso de seu corpo. Canetas coloridas e lápis em excesso podem ser um luxo desnecessário que vai pesar nas costas. O ideal é levar consigo apenas o material exigido para as aulasque serão ministradas no dia.

Outra solução é incentivar atividades de alongamentodo corpo mesmo fora das aulas de educação física. “O corpo alongado reage melhor ao estresse”, afirma a fisioterapeuta Marinha Tereza Alves Nascimento.

Márcio Oliveira aponta como solução a escolha e o uso adequado das mochilas. Elas devem ser utilizadas com as duas alças nas costas, na altura das costas e não do quadril, ou, no caso das mochilas de apenas uma alça, alternando de hora em hora o lado em que carregara mochila, para que não ocorra inclinação da coluna para o lado. Carrinhos de mão e mochilas de rodinhas são outra solução para evitar o peso nas costas, assim como adotar a utilização de armários nas escolas, para poder guardar o material em local seguro e sem precisar se ausentar das dependências do colégio.

Quando já existir o desvio da coluna, o problema é resolvido através de fisioterapia e RPG –Reeducação Postural Global. O tratamento atua na capacidade do músculo de se alongar e voltar ao seu estado inicial. Quandoo peso faz o corpo ir para um lado, o tratamento faz o processo inverso, através de um alongamento que inclina o corpo para o lado contrário.

Armários

Algumas instituições particulares de ensino oferecem armários que podem ser alugados mediante o pagamentode uma taxa anual. Exemplo disso são os colégios CEUB e Galois, que disponibilizam armários a seus alunos mediante o pagamento de uma anuidade. O preço varia entre R$95 e R$100, dinheiro que é utilizado para a manutenção desses armários. Apesar de adotarem um mesmo método, a administração dele em cada escola é feito de uma maneira diferente.

O Colégio Ceub instalou os armários por uma necessidade do público interno, conforme o assessor da diretoria do colégio, professor Giovani Guevara. Com a anuidade a R$95, ele afirma que tem em torno de 200 armários alugados, e que o valor é capaz de suprir todas as necessidades de manutenção. Uma solução que não é condenável nos colégios, embora esteja fora do contrato de aluguel do armário, é oc ompartilhamento de um único armário entre os estudantes, sendo dividido entre eles o valor da anuidade.

O Galois tomou a decisão de terceirizar o aluguel de armários e passar a responsabilidade para a Papelaria Brito. O colégio tinha dificuldades em administrar os armários, quase sempre terminando em prejuízo, até o início de 2008, quando a Brito assumiu a responsabilidade pelos armários.

A Papelaria Brito investiu na instalação de novos armários, mais resistentes e de fácil manutenção, e passou cobrar um valor de R$105 por ano. Com essa anuidade são feitos todos os reparos necessários em caso de dano na estrutura ou a troca de fechaduras, e a manutenção que é feita uma vez ao ano. A Papelaria Brito conta com 1.012 armários em todo o colégio Galois, mas somente 800 estão alugados. Enquanto isso, o Colégio Ceub possui 200 armários, todos eles ocupados. Apesar das diferenças de demanda e administração entre os colégios, a solução é comum: o uso de armários facilita a rotina do aluno e evita o carregamento de muito peso pelos estudantes.


Matéria escrita para a disciplina Técnicas em Apuração, entrevista e Reportagem, no 1ºsemestre de 2009. Disponível também em PDF.

Assunto: As consequências do excesso de peso nas mochilas de crianças e adolescentes, e o que profissionais de saúde acham a respeito.

Leia on-line clicando AQUI ou através do link abaixo:

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A Revolução dos Cravos e a Literatura Portuguesa

O dia 25 de abril de 1974 foi um marco histórico para Portugal. As ruas, antes cobertas e reclusas pelo medo imposto por meio das repressões da ditadura salazarista, foram ocupadas por militares munidos de cravos ao invés de balas – daí o nome que foi atribuído ao movimento, Revolução dos Cravos -, em uma das poucas ações pacíficas bem-sucedidas no país. A intenção do Movimento das Forças Armadas era, desde o início, garantir que o vermelho atribuído ao processo fosse somente o das flores. O governo que até então regia Portugal, o Estado Novo, havia se instalado com a promessa de atender aos ideais da sociedade portuguesa, desgastada pela sucessão de perdas econômicas e territoriais. No entanto, o que antes parecia uma solução utópica para os problemas de Portugal, acabou se tornando a principal opositora à liberdade de expressão do país.

Durante o período de ditadura, a censura intimidava a sociedade, perseguia os intelectuais e inibia as produções artísticas. Sob essas condições, as manifestações publicadas, quando conseguiam passar pelo filtro dos censores, apareciam escondidas numa linguagem alegórica e coberta de metáforas. Com o fim do governo fascista fundado por António de Oliveira Salazar, a produção artística se tornou mais intensificada, ou mesmo mais divulgada, uma vez que foram eliminados os recursos opressores que impediam a livre manifestação de idéias através das artes. Essa abertura, apesar da influência que teve nas obras e publicações, não significou uma mudança instantânea no processo de criação literária e artística, mas sim uma continuidade do que já estava sendo construído, antes e depois da revolução, em termos de identidade nacional. Portugal estava em busca de uma vestimenta exclusiva a que pudesse atribuir-se, uma forma de expressão que fosse considerada genuinamente lusitana. O romance e as demais manifestações artísticas atribuídas ao período pré e pós Revolução dos Cravos foi que definiram essa identidade, que encontrou na linguagem intertextual, nos múltiplos discursos e na pluralidade dos meios ficcionais, sua maneira própria e única de se expressar.

O tema mais recorrente nas obras ficcionais era a Guerra Colonial na África, que durou um período compreendido entre 1961 e 1975. Diferente da maneira pacífica como se deu a Revolução dos Cravos, a Guerra Colonial envolveu muitas perdas e derramamento de sangue. As produções literárias a respeito do assunto focavam no teor crítico da Guerra, como uma forma de recuperar e retratar, na ficção, a sucessão de barbáries cometidas por Portugal contra a África, que teria sido pouco falada, ou mesmo omitida, pelos portugueses. O romance reflete um momento de mudanças e questionamentos próprio do país na época, que procurava sua auto-definição. Essa mistura entre a História e a Ficção, e a busca por dados e vivências que fossem reais, não impediu que a linguagem criativa utilizada nas obras fosse explorada ao máximo, dando forma a uma característica que poderia ser incorporada como literatura portuguesa.

José Saramago também participa desse contexto de metaficção historiográfica. Diante da característica do romance envolvido com a Revolução dos Cravos, em que as narrativas encontravam histórias reais incorporadas em personagens fictícios, Saramago criou suas personagens baseadas na desmistificação dos heróis. São pessoas que foram esquecidas ou relegadas pela História Oficial, através das quais o autor procura tratar, de forma ideológica e com caráter de denúncia, a opressão dos tempos e a constante luta pela liberdade. A leitura das obras de José Saramago impõe um acompanhamento contínuo da narrativa, em que o leitor se identifica com a capacidade do narrador de se transmutar em outro e aderir a diferentes personagens, focalizando e dando voz a cada uma delas, através da pluralidade de narrativas características do romance desencadeado após a revolução de abril em Portugal. Saramago trata de pessoas reais por trás da ficção, que engloba o contexto português tanto do passado quanto do presente, através de uma linguagem experimentativa que busca a reflexão sobre valores e a representação do universal e do plural.

O romance português encontrou, no contexto tanto anterior quanto posterior à Revolução dos Cravos, a sua característica marcante e a sua identidade. Uma literatura que envolve toda a vivência dos portugueses da época da ditadura salazarista, a passagem pela revolução e os dias de hoje, através de uma linguagem metafórica e plural. O pensamento acerca da história e a busca por sua recuperação, nos altos e baixos, também marcam as idéias artísticas das produções essencialmente portuguesas.



BIBLIOGRAFIA

LIVRO

SECCO, Lincoln. A Revolução dos Cravos: a crise do império colonial português. São Paulo: Alameda, 2004.

ARTIGOS (consultados pela internet)

FLORY, Suely Fadul Villibor; CAMOCARDI , Elusis Mrian. A “Revolução dos Cravos” e suas representações na mídia e na literatura. COMUNICAÇÃO: VEREDAS, Ano III - Nº 03 - Novembro, 2004

ROANI, Gerson Luiz. Sob o vermelho dos cravos de abril – Literatura e Revolução no Portugal contemporâneo. Revista Letras, Curitiba, n. 64, p. 15-32. set./dez. 2004. Editora UFPR

PÁGINAS NA INTERNET

http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_dos_Cravos
http://www.unificado.com.br/calendario/04/cravos.htm